1 de jul. de 2010

Desumilde

Suave na nave? De boa na lagoa? Firmeza na represa? Suave? So você mora em algum lugar longe dos dostritos mais ao sul da zona sul de São Paulo, certamente não deve ter ouvido essas expressões que querem dizer um simples tudo bem. Eu as ouço diariamente, fazem parte do dialeto do bairro, e consequentemente, da escola. Mas a expressão que mais me chamou a atenção nos últimos tempos foi "desumilde". Quem já pensou no contrário de humilde? Arrogante? Soberbo? Nenhuma palavra, porém, define mais o ato de não ter humildade com alguma coisa do que o desumilde. Essa postagem, no fundo, é continuação dos bolos e doces, e como que sirvo algo diariamente que pra mim é precioso, mas indiferente pras pessoas para quem sirvo, mas que em algum momento elas se dão conta da importância, mas já tarde demais. Eu já sou formada (e muito bem, aliás, mas isso não vem ao caso). Eu já tenho emprego, pago minhas contas. Os caras saem de suas casas, carregam peso, vão pra escola, fingem que estudam, e quando chega o dia da prova, começam a querer prova com consulta, prova em dupla, prova em casa pra mãe fazer. Se alguém precisa de alguém ali, são eles, que precisam dos professores, afinal, não sou eu quem está bancando o tênis Timberland (com o D do final mudo, por favor), ou o boné da Oakley deles, mas alguém passou o dia trabalhando pra suprir as necessidades básicas de alguém que usa a escola como simples ponto de encontro. Este, pra mim, é um dos significados de desumilde: não tem humildade pra assumir que não sabe, afinal, é melhor posar de mau aluno do que ser o nerd da sala (inclusive, já se sabe há muito tempo que quem estuda mais ganha mais no futuro). Qualquer ventilador da escola sabe mais de Geografia do que alguns alunos, porque o ventilador tem a humildade de ficar lá parado fazendo o trabalho dele que é ventar. Mas os alunos não tem a humildade de ouvir alguém mais velho e mais preparado. E não me venham dizer que o que se aprende não tem nada a ver com a vida, pois a cada dia as contextualizações são mais diretas e concretas. Mas daí aparecem novamente os desumildes, que não se comovem nem com temas sociais como reforma agrária. Parece que não conhecem a própria história. Cabe lembrar que boa parte dos bairros que moram foram ocupações recentes, frutos de loteadores populares, casas feitas pelos próprios moradores, além de violência, muita violência. Quem é mais pobre, a criança de acampamento ou o desumilde?

Um comentário:

  1. Oi Maria!

    Adorei seu texto, reconheci algumas angustias minhas tb! Posso usa-lo com meus alunos???

    bjos

    Isabela

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